sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Forgiven



  Seu corpo tremia por inteiro, seus olhos já não suportavam mais lágrimas, uma forte dor o abateu, seu coração apertou-se. Sentiu em cada milímetro de seu corpo, por todos os poros, em cada respiração a falta de sua amada espectro, mas seguir em frente seria o certo a se fazer.
  Damien já havia superado a segunda partida de Emilly, estava tentando manter-se bem na medida do possível, mas não foi o que aconteceu.
  Ele não sabia exatamente o que Emilly fez no último dia em que a viu, havia ficado com medo do que aconteceria, chegou até a sentir raiva por ter enganado-se, mas acabou percebendo que o que ela fez o livrou de sua maldição, levando consigo seus pesadelos.

  Do outro lado, onde Emilly estava, seu espírito ainda não estava em paz. Não havia nada que a fizesse sofrer menos. Mesmo depois de morta, a saudade jamais a abandonou.

       - Ei senhorita. - Um sussurro veio à Emilly de um anjo-sacerdote. - Se já não estivesse aqui, diria que a saudade lhe mataria
       - Perdoe-me, mas eu gostaria de ficar sozinha, por favor.
       - Ah claro. - Ele se levantou. - Mas não precisa chorar um oceano, doce senhorita. Talvez suas preces sejam ouvidas. - Ele sussurrou as últimas palavras. - Tenha paciência, o tempo é dono de tudo.
  O sacerdote saiu voando graciosamente, transmitindo paz ao coração quebrado de Emy.
       - Eu espero que sim...

  Quando se tem uma missão à concluir desde o momento de seu nascimento porém é interrompido sem concluí-la, tem o direito de voltar à vida e terminar qualquer que seja a sua missão. Mas Emilly já havia concluído a dela, libertar o anjo dos sonhos perturbados, não teria motivo para voltar a vida, aparentemente.

  Um anjo que acompanhou toda a história de Emilly desde criança, passando pelo sofrimento de Matt, depois de Damien, até a atual situação, uma doce alma apaixonada e despedaçada, não mais chorava nem falavam apenas sofria, decidiu que a ajudaria o quanto pudesse.

       - Olá Emilly, minha pequena criança. - Disse o anjo ao sentar-se no chão junto à Emi. - Posso lhe propor algo?
  Ela apenas concordou, sem uma simples palavra, apenas acenou que sim.
       - Bem, há uma garota no sul da Alemanha, o amor de sua vida foi morto em um assalto e seus pais em um acidente de trem, onde ela também estava. - Emilly deixou uma lágrima escorrer, as palavras do anjo atingiram em cheio seu coração. - Por sorte -ou não- Ela sobreviveu Está há oito anos em coma.
       - Nossa. - Ela suspirou profundamente. - E por que o senhor está me contando isso anjo?
       - Lhe conto porque esta garota é fisicamente igual a você. Seus médicos estão para desligar os aparelhos que a mantêm viva, e isso não pode acontecer.
       - Mas sua alma não está sofrendo em um corpo quase morto? Por que ela não pode partir?
       - A alma dela perdeu-se quando ela resolveu não voltar ao seu corpo, a sua vida solitária.
       - E de que adianta um corpo sem espírito?
       - De nada! Por isso lhe conto isso, pequeno anjo, a garota é idêntica à você. Essa é sua última chance de viver com seu eterno anjo, Damien.

  No ato, Emilly o abraçou e pôs-se a chorar, agora de felicidade, agradecendo-o.

       - Muito obrigada senhor. Lhe serei eternamente grata!
       - Não preocupe-se, agora vá! Terás a eternidade toda para me agradecer. Viva!

  Emilly tomou novamente a vida, abriu seus olhos e respirou profundamente, sentindo seu pulmões enchendo-se de ar mais uma vez, pôs-se em frente à um espelho, nada havia mudado, estava viva outra vez.






Do you get what you pray for?


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  Damien terminava de se arrumar quando olhou sem se preocupar para a cômoda à sua frente. Estava feliz pela primeira vez em anos, estava realizado em tudo o que sonhara desde pequeno e embora parecesse um absurdo, tinha quem amava por perto. Sentiu-se completo.

       - Ei... - Emilly apareceu na porta do quarto, seu sorriso não era o doce e suave de sempre, estava carregado de tristeza, tal quanto seu olhar marejado. - Preciso de sua ajuda Damien, por favor...

  Ele a abraçou assim assim que ela entregou-se às lágrimas. Emilly não conseguia esconder o quanto temia pelo o que teria que fazer, talvez não voltasse a ver Damien, mas era necessário.

       - O que você precisa? é só me dizer.
       - Vou livrá-lo de seus pesadelos perturbadores, você está livre. - Esforçou-se para um sorriso.
       - E como? Emilly, eu...
       - Shiiiiu, não temos muito tempo! Pegue um canivete na gaveta da cozinha e encontre-me próximo ao lago que tem ao norte, junto ao canivete tem um mapa. Apresse-se!
  Emilly desapareceu novamente.


  O coração de Damien apertou, este realmente seria a última vez que veria Emilly?
  Foi até a cozinha, pegou o canivete e o mapa, voltou ao quarto e abriu o guarda-roupa em busca de um casaco um pouco mais quente. Fora a primeira vez que abriu o guarda-roupa desde que havia chegado. Encontrou um caderno,  algumas anotações e três frascos com um líquido escuro e um outro vazio com os dizeres "angel". No caderno tinha um pequeno relato sobre Alice, anjos maldição e sangue, coisas bem confusas para Damien. Junto à tudo isso havia uns jornais cortados, todos com uma manchete parecida. "garoto encontrado morto no lago, suspeita é namorada da vítima"

  Damien assustou-se, chegou a conclusão de que Emilly não era misteriosa atoa, também não era quem ele pensou ser. Pegou seu carro e seguiu até o lago. Ao chegar lá, Emilly estava sentada com os pés na água.

       - Você não deveria estar com medo de mim sweetie...
       - Então me explique! Me trouxe aqui para me matar, assim como os outros que você já namorou?
       - Por favor, meu amor. - Emilly tentou beijá-lo, mas Damien desviou. - Não tenha medo.
       - Você matou o Matt não foi? E depois se livrou do que vieram em seguida. Fala pra mim! - Damien exaltou-se. Por dentro seu coração estremeceu, sentiu medo.
       - Você não entendeu! Por favor meu amor, não aja assim, poderei livrá-lo do que lhe atormenta!
       - Ah claro! - Disse ironicamente. - Então então tome este maldito canivete. Mate-me de uma vez!
       - Pelo amor de Deus, Damien! Pare! - Emilly bateu na mão dele derrubando o canivete no chão e o beijou. No início Damien relutou mas acabou rendendo-se

  Com os olhos fechados, eles só conseguia enxergar Emilly e sua boca, tudo perfeitamente materializado. Sentiu algo escorrer de seus olhos e os abriu, cessando o beijo.
       - O que está acontecendo?
       - Venha! - Emilly o puxou até a beira do pier. - Deixe escorrer o sangue na água.
  Damien o fez.
  Em segundos uma luz saiu de dentro do lago e foi em direção ao céu.

       - O que foi isso? - O sangue parou de escorrer e ele levantou o rosto. - Emy?


  Emilly desapareceu. Seu espírito não seria visto novamente por Damien.
  Ela finalmente teve o que tanto rezou, Matt estava livre, assim como todos envolvidos na maldição, porém perdeu a comunicação com seu amado anjo.


















terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Pure



 O fim de semana estava próximo quando tudo aconteceu. Com o fim da primavera o verão se aproximava e Matt já havia preparado tudo para a pescaria no sábado.
  Emilly estava em sua casa se arrumando para mais um dia no colégio. Olhou pela janela de seu quarto e viu um casal se beijando, a pureza de duas pessoas se amando a encantava. Olhou um pouco mais interessada e viu que era Matt beijando outra garota. Fechou as cortinas de desceu até a rua, não havia mais ninguém lá.
  No mesmo instante Matt apareceu em sua frente roubando-lhe um breve beijo. Ele estava diferente, um ar arrogante o rondava.

       - Ow Emilly, o que achas de ficarmos por aqui... - Matt insinuou-se. - Afinal seu pais não estão...
       - O quê? - Emilly estranhou a atitude de Matt, afinal, a segundos atrás estava aos beijos com outra pessoa. - O que há com você?!
       - O que há? Eu quero ficar com você, não posso? - Ele a puxou pela cintura.
       - Não. - Emilly se afastou. - Não pode! A alguns instantes você estava ao beijos com outra garota logo ali em frente! - Emilly aumentou seu tom de voz.
       - Do que você está falando menina?

  Emilly o empurrou, fazendo-o sair.

       - Vá embora e jamais me procure novamente!
       - Não grite comigo! - Assim que Emilly fechou a porta, Matt começou a bater incessantemente. - Emilly! Emilly abra essa porta! Você está maluca?!

  Emilly não abriu.
  Matt fora embora. Pra sempre.

  Matt havia desaparecido.
  Dois dias depois um corpo de um garoto apareceu no lago, era o dele.
  Por conta da discussão nos dias anteriores, Emilly ficou como principal suspeita e por um longo tempo ficou internada em um sanatório, onde começou a ter pesadelos constantes envolvendo um anjo, lindas asas negras de um anjo sobre um lugar escuro repleto de sangue.
  O ambiente em que estava vivendo era compartilhado com mais duas garotas. Uma delas negava-se a tomar os medicamentos e repetia infinitamente que "seu dom" não era uma insanidade.

  Em uma noite, Emilly acordou e a garota estava ao lado de sua cama, suava frio e tinha pressa em falar com Emilly, seus olhos estavam avermelhados e seus lábios rachados de tão ressecados.

       - O que houve? Você está bem?
       - Não tenho tempo, não, não tenho! O garoto, o dos sonhos perturbados, os olhos! - A menina ficava a cada instante mais e mais perturbada. No canto superior de seus lábios começara a escorrer sangue e seu corpo tremia absurdamente. - O sangue do último amaldiçoado quebrará o círculo, sim, faça isso!
       - Mas do que é que você está falando?
       - Você pôde ver o mundo dos mortos, isso deve ser quebrado! Quebre a maldição, ela libertará você...

  No mesmo instante a garota desmaiou, deixando Emilly ainda mais apavorada. Começou a gritar pedindo ajuda e em seguida alguns enfermeiros levaram a menina para outro quarto e doparam Emilly, fazendo-a voltar a dormir.


  No dia seguinte, no pátio fúnebre do sanatório Emilly avistou a garota que havia lhe assustado na noite anterior sentada em um banco com seus olhos fechados, chorava silenciosamente.

       - Olá?
       - Olá... - A garota enxugou suas lágrimas. - Perdoe-me por ontem, não sei direito o que houve.
       - Vim aqui pois fiquei intrigada com o que você me disse. Que maldição é essa? Não quero ser rude, portanto não esforce-se, okay?
       Sim. - A garota se ajeitou dando lugar para Emilly sentar-se junto a si. - Bem, primeiro permita-me me apresentar, sou Alice e oque tenho a lhe dizer é algo extremamente perigoso, portanto cuidado. - Emilly franzia a testa. - Você fora designada à um propósito assim que nasceu, fora abençoada com o dom de extinguir uma pequena passagem do mal em nosso mundo, porém a pureza de sua alma e espírito deveria ser intocada assim como seu corpo, a  quebra disso a amaldiçoou. - Emilly a olhou incrédula, como isso seria possível? - A cada 3 luas minguantes você poderia ter acesso a quem manipula os pesadelos dos olhos sangrentos, impedir a expansão disso. - Ela segurou as mãos de Emilly. - Você viu o mundo dos mortos, isso a persegue agora.
       - Mundo dos mortos? Por um acaso você está brincando comigo garota? - Emilly livrou suas mãos das de Alice. - Quer mesmo que eu acredite na sua estória maluca de maldições? Daqui a pouco você inventa que duendes e vampiros malignos virão atrás de mim! Poupe-me!

  Alice segurou com força o braço de Emilly assim que ela se levantou e a trouxe para perto de si, fazendo-a voltar a sentar-se.

       - Você não irá  a lugar algum até eu terminar Emilly!
       - Você... - Emilly espantou-se, afinal, não havia dito seu nome em momento algum. - Mas como...?
       - O anjo de seus pesadelos sonha o mesmo que você, porém mais constantes e no lugar dele, você é o anjo. Por favor, ouça-me, apenas o sangue dele irá quebrar sua maldição e a dele. Só assim você entenderá tudo!
       - E o que eu devo fazer?
       - Primeiro você deve sair daqui, assim poderá encontrar seu anjo.
       - E como saberei que é ele. - Emilly deixou-se acreditar no que a menina dizia.
       - Você se apaixonará por ele, alguns virão e lhe deixará confusa, mas sua própria maldição dará jeito nisso! Apenas o garoto dos olhos de sangue irá libertá-los e salvar a alma de seu amigo presa no lago.
       - Matt? Mas o que ele tem a ver?
       - Ele está preso! Quando chegar o momento exato, você deve derramar o sangue do anjo em formato de círculo sobre o lago. Você não terá seu corpo, mas saberá o que fazer.

  Não terei meu corpo? Pensou Emilly. Não fazia ideia do que fazer, estava acreditando em uma garota do sanatório.

  Emilly passou mais duas semana internada no sanatório até que fora constatado que ela não havia nível algum de insanidade. Conforme o tempo foi passando, se apaixonou duas vezes, ambos foram levados por sua maldição. Um viajou para o outro lado do planeta, e o outro morreu em um acidente no mesmo lago em que Matt aparecera morto.

  15 Anos e farta de acusações, mudou-se com seus pais para Botter, onde finalmente encontrou seu anjo dos olhos de sangue.



domingo, 12 de fevereiro de 2012

A place where you belong

 





"Can I die with you so we can never grow old ?"

  Mergulhado em sua própria miséria, pensou na insanidade que permitiu invadir sua mente e seu coração.
      - "... too late, too late, I never said goodbye..."
  Uma música particularmente triste tocava enquanto Damien dirigia até a clínica em que fora contratado. Ficou cantarolando a música durante o dia inteiro em sua mente, aparentemente, era tudo o que conseguia pensar além do espectro de sua amada.




       - Dr Damien, estão precisando de você na emergência, sei que já é o fim de seu expediente, mas o estado do garoto é grave! Venha comigo. - Disse uma das enfermeiras ao correr até a sala que Damien estava, preparando-se para ir embora.

  Ao chegar à emergência, um garoto estava na maca desacordado e com a blusa ensanguentada. Aparentava ter aproximadamente  uns 16 ou 17 anos, suas mãos estavam cortadas e esfoladas como se fosse lixadas até a pele sumir e seu rosto estava inchado e vermelho. Constatou, o garoto sofrera até a ajuda chegar.

       - Levem-no para a sala de exames, teremos que tirar uma radiografia das mãos e braços, e depois à sala de cirurgia, ele está com algumas costelas quebradas e o nariz também.

  Damien permitiu a si mesmo pôr-se no lugar do garoto. Na mesma idade, passou pela maior dor que pôde sentir, e para tentar diminui-la, socou a parede até sentir dor física, pois a que sentia era impossível de aguentar.



  Após todos os exames, o menino ficou em observação, então Damien foi visitá-lo.

       - Olá! Fico feliz em saber que o senhor está bem.
       - Como eu vim parar aqui? Quem é você?
       - Lhe encontraram desacordado em um beco, sem documentos, dinheiro, sem nada. Vim aqui para saber seu nome para darmos entrada em seu prontuário.
       - Me chamo Michael, Michael Richard.
       - Você teria algum telefone de contato para podermos contatar seus pais?
       - Não! Eles estão mortos! - O garoto começou a lacrimejar, sem desfazer sua feição de raiva e ira por tal fato. - O senhor poderia me liberar logo? Não suporto este lugar!
       - Eu sinto muito, mas ainda não posso lhe dar alta, em breve voltarei para saber como você está. Okay?
       - Tanto faz!

  O garoto virou-se e Damien saiu do quarto.

       - Ei Dr. Damien, encontrei o prontuário do garoto. Há duas semanas atrás, ele deu entrada aqui com os pais.
       - Estranho... ele disse que os pais dele morreram.
       - Sim, foi um grave acidente de carro, apenas o garoto sobreviveu.
       - Entendo...bem, avise-me se ele melhorar, agora irei para casa. Boa noite para a senhora.
       - Bom descanso Dr. Damien.

  Damien estava certo, o garoto sofrera, não pertencia a lugar algum.




       Se importar com a dor alheia é o que lhe faz humano, sabia sweetie?

  Desta vez Emilly vestia roupas comuns como costumava usar quando viva.

       - Perdoe-me, mas você lê minha mente, mi lady?
       - Não, mas ouço seu coração, e sinto que devo lhe contar algo. Algo deveras importante.

  Damien puxou uma cadeira e sentou-se em frente à Emilly.

       - Diga. - Ele segurou as mãos dela e sorriu docemente.
       - Sei que não questionou-me sobre isso ainda porque eu lhe pedi, mas seu coração implora por uma resposta. Você precisa saber sobre o menino da fotografia, Matt.
       - Emilly. - Damien a interrompeu. - Creio que há coisas que eu não deva saber, ou então partirá.
       - Ei, não tenha medo, ainda não lhe deixarei, mas preciso que você saiba tudo o que houve à anos atrás, me ajudará.
       - Tudo bem...
       - Bem, antes de me mudar para Botter, nasci e morei aqui até meus 15 anos. Tive amigos, mas o que mais confiei fora Matt. Ele era um destrambelhado e folgado, mas era muito divertido. Matt tinha uns pensamentos muito curiosos e medonhos sobre espíritos, e isso me atraiu à ele e ele à mim. Quando começamos a namorar pensei que seria para sempre e entreguei-me a ele, unicamente...
       - Podemos continuar amanhã? - Interrompeu Damien, desconfortável com o rumo da conversa.
       - Claro meu amor. - Emilly concordou que seria preciso mais calma para fazer Damien entender tudo o que estava acontecendo. - Estás exausto.


  Damien deitou-se e dormiu.
  Emilly desapareceu no ar, seu tempo estava acabando.






quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

If you believe...


  

  Um raio de sol bateu em seus olhos fazendo-o acordar. Damien abriu seus olhos e respirou profundamente, sentindo seus pulmões encherem completamente de ar, sentiu a vida.

       - Você está aí? - Sem resposta.

Damien sabia que por mais triste que estivesse, imaginar Emilly falando consigo seria um pouco demais.

       - Eu devo ter sonhado, é isso! Foi apenas mais um desvaneio.

  Sentir a presença de quem se ama nem sempre é apenas um sonho, porém muitos acreditam ser apenas isso. Sonhos sem fé serão eternamente apenas imaginação, já que acredita no que se sonha o terá como realidade. Damien não acreditava. Nem por um instante.

  Ele abriu a gaveta que estava com a chave assim como na noite anterior, se tudo fosse um sonho a chave não abriria a gaveta e não haveria nada lá além de poeira. Equivocou-se. A foto estava lá. Seu celular tocou e ele foi atender a um chamado na clínica de um colega que o indicara.




  De volta à casa vazia, sentou-se em uma poltrona na sala-de-estar e acendeu a lareira, vendo o fogo crepitar.

       - Se você acreditasse em mim não como um sonho apenas, não sentiria-se tão só.

  Emilly estava sentada em um dos degraus da escada vestida em um lindo e longo vestido formal.

       - Eu estou ficando louco, não é meu amor? - Disse Damien ao sentar ao lado dela abraçando-a.
       - Por que diz isso?
       - Você está morta! E mesmo assim te sinto, te ouço, te vejo. é como se...
       - Se eu estivesse viva? - Completou Emilly sorrindo docemente.
       - Sim.
       - E estou, mas não em seu mundo. Sei que é difícil de entender, por isso estou aqui, mas não por muito tempo.
       - Então quer dizer que eu lhe perderei mais uma vez? - Ele se levantou, ajoelhando-se em frente dela. - Não faça isso comigo, por favor...

  Emilly o levantou e o abraçou. Olhou fixamente em seus olhos e enxugou as lágrimas do rosto dele. Seu coração ficou apertado, causara sofrimento demais, não tinha o direito de torturar tanto alguém que amou com tamanha intensidade.

       - Eu sinto muito...
       - Então me leve com você! Eu não vou aguentar continuar assim sem você. Essa dor vem me matando por anos, não me deixe aqui sozinho.
       - Ei meu amor. - Ela acariciou o rosto de Damien, tentando acalmá-lo. - Você ainda tem uma vida incrível pela frente e será muito feliz. Amará novamente com todo o seu coração.

  Ele se afastou em prantos.

       - Será que você não vê? Meu coração é único e completamente seu! Eu não quero ser feliz sem você, jamais amarei alguém sem ser você...

  Emilly o calou beijando-o, causara tanto sofrimento ao partir que começou a se arrepender por ter voltado por tão pouco tempo.

       - Vamos viver o agora então? - Damien concordou. - Quer saber o por quê se eu estar vestida assim?
       - Sim, e por sinal estás divina, mi lady.
       - Hoje é a noite do nosso casamento! - Ela sorriu ao girar, rodando seu vestido. - Os convidados estão bêbados dançando do lado de fora enquanto o casal curta a parte romântica da festa sentados à lareira.

  Damien sorriu e permitiu-se cair na imaginação. Acreditaria em tudo o que Emilly lhe pedisse.

       - Venha mi lady. - Uma música doce ao piano começou a soar pelo ambiente. - Vamos dançar.

  Emilly apoiou seu rosto ao de Damien em uma dança lenta, cantando sussurros da música em seu ouvido.

       - "...If you believe, true her name is honesty, let her shine through your darkest temptation..."





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Voices









  Seu mundo estava submerso por uma enorme e triste nuvem negra. Pesadelos constantes com Emilly morta em seus braços e sangue em sua mãos eram constantes. Torturava-se ao relembrar o último dia em que a viu respirar, que viu o lindo brilho de seu olhar, o último dia em que a viu viva.
  Damien isolou-se de todos ao seu redor, não bebia nem comia nada, definhava-se com a imagem de Emilly em sua mente.
  Preocupados com toda essa situação, seus pais o internaram em um hospital em outra cidade para que ele se recuperasse, afastando-o da dor das lembranças.


  Conforme os anos se passaram, Damien tornou-se cirurgião como o esperado, sendo um exemplo na pequena cidade triste.
  Seu olhar continuava melancólico, mesmo durante todos os anos que se passaram, até o que fora convidado a se especializar ao oeste do país em outra pacata cidade, Monroeville.




  Sua viagem até lá fora calma, apesar de longa. Em sua mala havia algumas camisas, calças, seus jalecos e uma foto do trágico dia no lago com Emilly. Ao mesmo tempo em que a imagem o fazia rir, o fazia sentir um vazio enorme tal quanto a dor em seu peito que deveria ter recebido o tiro ao invés de Emilly.



A casa em que ficaria estava lotada de teias e poeira. Estava vazia há mais ou menos sete anos, desde que os antigos donos mudaram-se para longe. Diziam que a filha do casal fora internada em um hospício por ter matado seu amigo de infância e ter graves surtos. Pela vizinhança rondava um boato de que a casa era mal assombrada pelo espírito perdido do garoto. Isso o atraiu ainda mais, fazendo-o comprar a casa.




  Após ter arrumado algumas coisas e desfeitos as malas, deitou-se no quarto que provavelmente fora da filha surtada que morara lá. Se ajeitou um pouco e viu um criado-mudo com a chave na gaveta. Rodou-a e abriu a pequena gaveta. Lá dentro havia uma fotografia empoeirada de um garoto abraçado com uma familiar garota, atrás da foto estava escrito algo meio apagado.


  Impossível! Pensou Damien.
  Emilly vivera nesse lugar, sua Emilly! Damien levantou-se e acendeu a luz. Olhou tudo ao seu redor, era o antigo quarto dela, com absolutamente tudo o que ela amava.

  Uma lágrima rolou pelo rosto dele quando em uma leve brisa, o perfume de Emilly adentrou o quarto tornando-o doce e angelical. Suspirou. Lentamente, Damien virou-se e a viu sentada sobre a cômoda.


       - Eu sabia que você viria sweetie.

  Em um ato repentino, Damien a abraçou, sentindo-a com todo o seu coração. Chorou por não acreditar no incrível milagre que estava acontecendo ali.

       - Emilly! Mas como...?
       - Shiiiu. - Ela o calou cobrindo seus lábios com uma de suas mãos. - Não tente entender nada agora, okay? - Emilly segurou o rosto de Damien com suas mãos e fitou cada milímetro de seu rosto, matando a saudade que sentiu de cada minucioso detalhe em Damien. - Há tanto tempo que eu ansiava por este momento meu amor. Você está mais velho, maduro... diferente. Porém extremamente melancólico, triste. Acho que o senhor não cumpriu sua promessa, não?
       - Perdoe-me, não pude ser feliz sem você. Parte de mim morreu quando você se foi. - Ele se perdeu em lágrimas novamente e a abraçou mais uma vez, forte. - Fique comigo? Por hoje...
       - Claro que sim, voltei por você. - Emilly sorriu. O brilho de seu olhar voltara e por um instante, Damien a sentiu viva novamente. - Me parece que você é atraído por lugares medonhos, não é mesmo sweetie?
       - Não sei o porquê, mas esse lugar me atraiu, assim como você no primeiro dia em que a vi.

  Ela o beijou ternamente, mantendo-o o mais perto que pôde de si. Sua mãos acariciavam levemente os cabelos de Damien, enquanto as deles os envolviam em um apertado e aconchegante abraço.




  Emilly acalmara seu espírito, Damien estava junto a si. Agora ela só precisava fazer com que ele acreditasse em seu coração. Apenas isso.


I won't see you tonight





   Uma chuva torrencial caia, todos os rosto estavam encharcados, molhados entre água e lágrimas, as roupas, em especial as dos familiares da doce garota, simbolizavam o luto e dentro do caixão uma criatura inerte, apaixonada, amaldiçoada no auge de seus 15 anos, um dia a mais e teria 16, poderia dirigir, teria uma linda festa, já tinha planos, agora enterrados junto à ela.

       - "...Nem todos nós entendemos o significado da morte, ainda mais quando quem parte é alguém tão jovem e querido quanto nossa pequena Emilly... - O pai de Emilly recitava o texto que havia escrito ao amanhecer durante a dor que o invadiu. Enquanto falava o caixão descia à cova. - ...Você deixará saudades minha bonequinha, guarde um lugar para mim junto à ti querida, descanse em paz meu amor." - Ele encerrou lançando uma rosa vermelha sobre a terra que cobria a cova.

  Todos partiram, exceto um garoto, cujo o amor incondicional e sofrimento eram intensos. Damien apoiou-se na lápide e ajoelhou-se. Em seus olhos já não lhe restavam mais lágrimas, suas mãos estavam enfaixadas pois havia socado as paredes e se arranhado em busca de dor física que suprisse a emocional.
       - "Amada filha, sempre conosco". - Damien lia os dizeres na lápide de Emilly, acrescentando "Sempre em nossas almas".

  Levantou-se e entrou no carro onde seus pais lhe aguardavam.

  Damien não sabia, mas Emilly o ouvia, suas almas continuavam conectadas uma a outra. Emilly sentira tudo o que passava em seu coração. E em um sussurro, espiritualmente soprou ao ouvido de Damien.

       - Encontre-me swettie...
  Ele fechou seus olhos e chacoalhou a cabeça. Chorou sozinho, pois não a veria essa noite.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Sleep well, my angel



  Emilly fechou seus olhos pela última vez, esforçando-se para pedir uma última promessa a Damien.

       - Prometa-me que você vai seguir em frente... - Sua voz ficara ainda mais fraca, assim como as batidas de seu coração. - Seja feliz por mim meu amor... amarei você para todo sempre Damien.
       - Eu prometo... prometo o que você quiser, por favor não me deixe, não se vá! - Emilly já não respirava mais. Damien a abraçou sentindo o sangue dela escorrer por seu corpo. - Não! Não! Emilly, meu anjinho, Emilly! - Ele a chacoalhava, em vão.

  Com Emilly ensanguentada e morta em seus braços, Damien olhou para o céu e pediu para que esse dia fosse mais um de seus pesadelos, infelizmente não era. Sua lágrimas eram constantes, seu desespero profundo, uma dor incompreensível.

       - Ei garoto, temos que levá-lo para a delegacia como testemunha, venha! - Disse um dos policiais, dando um tempo para Damien.

  Damien a beijou, com ela ainda em seus braços, acariciou-lhe os cabelos e apoiou sua cabeça ao peito dela, buscando o som de seu coração, mudo.

       - Eu amarei você até o último segundo em que meu coração bater, eu juro. - Ele a beijou, fora o beijo de despedida à um anjo e a deitou cuidadosamente ao chão. - Perdoe-me por não ter lhe protegido, durma bem meu anjo.

  Ele entrou no carro da polícia e fora à delegacia, pela janela, viu a neve manchada, o corpo de quem amara ao chão e suas esperanças despedaçadas, Damien morrera por dentro.

Bittersweet Memories

  Dizem que todas as partidas são tristes, pois as pessoas se vão , as memórias de seus atos ficam.
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 Anna nunca fora simpática com ninguém, exceto seus poucos amigos, que após o ocorrido com Emilly, afastaram-se. Decidida a voltar à pequena cidade de Botter, iria consertar seus erros.
  Em uma gélida tarde de janeiro, Anna foi até o lago congelado e esperou por Damien, avisaria à ele o risco que corria com Jeff sumido e o quão arrependida estava por tudo o que fizera.




  Bem longe dali, ao outro lado do lago, Damien e Emilly divertiam-se fazendo poses para a nova câmera fotográfica que Emy havia ganhado de aniversário precipitadamente.

       - Amor, para aí onde você está! - Disse Damien se afastando para fotografar Emilly. - Perfeito! É esse seu sorriso que eu guardarei para sempre.

  Ela o abraçou e retirou a fotografia instantânea da câmera.

       - Então essa aqui é a que eu quero guardar para sempre. - Ela o beijou e bateu a foto, retirando-a da câmera e guardando em sua jaqueta. - Dam, acho melhor sairmos daqui, tem uns garotos estranhos vindo pra cá.



  Os rapazes que estavam chegando perto deles eram três, Peter, Éros e Jeff. No instante em que eles chegaram perto de Damien e Emilly, Damien deu um passo à frente, protegendo-a.

       - O que você quer agora Sanders? - Jeff fez um sinal com a cabeça, então Éros segurou Damien, puxando seus braços para trás e Peter segurou Emilly. - Será que você não entende que eu não quero nada com a Anna? Porque você está fazendo isso?

  Jeff retirou uma pistola de sua cintura e a apontou em direção ao queixo de Damien. No mesmo instante Emilly gritou por socorro, sendo calada em seguida por um soco em seu rosto.

       - Emilly! - Damien tentava soltar-se com todas as suas forças, em vão. - Seu maldito! Eu vou acabar com você!
       - Acho que você ainda não entendeu! Eu vou matar você, me divertirei com a sua namoradinha e depois Anna se sentira em eterna gratidão comigo. Simples assim.

  Anna havia chamado a polícia ao ver Jeff próximo à Emilly e Damien, e ao longe os policiais começaram a chegar.

       - Hey cara, é a polícia, vamos embora! - Disse Peter ao largar Emilly ao chão brutalmente e sair correndo, Éros fazendo o mesmo.

  Emilly engatinhou até Damien e se jogou sobre ele abraçando-o.

       - Santo Deus, que sorte! - Disse Emilly sorrindo levemente, aliviada com a chegada dos policiais.

  Sem olhara para trás, Jeff atirou em direção a Damien, dessa vez não fugiria sem terminar o que iria fazer.

  O alto estampido silenciou qualquer som, silencio o som dos carros de polícia, das respirações, das lágrimas... silenciou o grito de sofrimento de um coração afogando-se em sangue.

  A história de um amor que acabara de nascer estava morrendo, escorrendo sangue quente sobre o sólido gelo do lago Botter, na triste tarde de janeiro.